São quase sempre histórias do tipo: “Como larguei meu emprego bem remunerado e fundei minha empresa milionária”. Obviamente são as histórias contadas por quem teve sucesso, olhando pelo espelho retrovisor.

Fracassados ou os que simplesmente não chegaram lá não contam suas histórias. Ou por acaso alguém já ouviu a história de quem faliu a empresa e hoje está num emprego do qual não gosta. Pouca gente gostaria de ouvir isso. Eu estava lendo o livro “A Loja de Tudo”, quanto à biografia da Amazon, tem 300 e tantas páginas, na página 20 o Jeff Bezos já era multimilionário, e a Amazon já era uma das empresas mais bem-sucedidas dos Estados Unidos.

E isso é injusto, porque não é assim que acontece, a gente sabe que não é assim que acontece pra 95%, 99% dos empreendedores e empresários que tentam criar alguma coisa.

Mas como é, então, o dia a dia, a realidade e o empreendedorismo visto dos bastidores?

Eu sei como foi pra mim e vou contar um pouquinho dessa história. Tudo não começou numa garagem, como conta a lenda; começou numa biblioteca. E começou com um impulso empreendedor que eu vejo muito parecido com o impulso do artista de criar, de compor, de pintar.

Só que eu fazia Administração de Empresas e a forma de expressão que eu encontrei foi o empreendedorismo. Expressão de quê? Expressão de poder ver que meu trabalho influencia na vida das pessoas; de criar uma empresa que tem algum sentido um pouquinho maior do que gerar lucro, simplesmente, não que isso não tenha o seu mérito; queria poder fazer o que eu amo de verdade, então pegar uma coisa da qual eu gosto e colocar no meu dia a dia de trabalho.

E o que eu amo são os livros. Não só isso, claro, mas uma das coisas. E o Gustavo, meu sócio, sempre quis ter uma livraria, mas nunca conseguiu achar o contexto, a gente, se reunindo, discutiu e surgiu a ideia do clube de assinatura de livros, que o modelo já existe, alguns de vocês devem conhecer, de cerveja, de vinho, só que não existia nada pra livros.

Mas clubes do livro sempre existiram, a vida inteira, o pessoal se reúne pra discutir, então a gente achou que o modelo casava, viu aí: “Tem uma chance de fazer uma coisa que eu gosto, trabalhar com livros, cultura, em uma oportunidade de negócio”.

Então, como diz o outro, a ideia foi indo, indo e “iu”, e um ano depois das primeiras concepções de como seria um clube de assinaturas de livro, a gente fundou, então, em agosto de 2014, a TAG Experiências Literárias, que é um clube de assinaturas de livros. E aí começou minha trajetória no empreendedorismo e os aprendizados que eu tenho pra compartilhar.

O primeiro deles é que é muito difícil. A gente sabe disso, mas, enfim, todos aprendizados são obviedades que, um dia, a gente percebe a verdade delas, e eu percebi o quão difícil é.

As árvores e o Empreendedorismo

O escritor mineiro Rubem Alves tem uma analogia em que compara o jequitibá ao eucalipto, e ele fala que o jequitibá é uma árvore esplendorosa, com personalidade, que leva séculos pra ser construída, e o eucalipto, ao contrário, é plantado sob uma ótica comercial, um ao lado do outro, parecem árvores batendo continência.

E é uma metáfora que pode ser entendida pra inovação. Eu sempre quis que a minha empresa fosse um jequitibá, fosse diferente, levasse os meus valores pro mundo, aquilo em que eu acreditava, e trabalhar com literatura, enfim, o mercado literário é extremamente conservador, e, enfim, a gente está no Brasil, é muito difícil de vender algo que não seja “Cinquenta Tons de Cinza”.

Mas a gente queria tentar e saber que, se um dia o Brasil se tornar um país de leitores, talvez a gente vai ter algum papel nisso, talvez não, bom, se não der certo, a gente vai pra outra.

Mas a metáfora oculta, ou a parte oculta dessa metáfora é que o jequitibá, até se tornar essa árvore linda e esplendorosa, era só uma muda estranha e intrusa num universo de eucaliptos.

E como é difícil ser um estranho, um intruso, e tentar levar essa tua ideia diferente pro mercado. Tanto que este é o segundo comentário da história da nossa página no Facebook, a gente tinha acabado de lançar a empresa, estava eufórico, ele vem e fala: “Por que devo pagar R$ 69,90 pra receber um livro de 1986, que por acaso já tenho há muitos anos, e que pode ser encontrado novo por R$ 55 e usado a partir de R$ 25?

Vocês prometem novos autores, novas leituras e perspectivas e oferecem um campeão de vendas de quase 30 anos? Qual é o ponto? Apenas ganhar dinheiro com os incautos ou realmente espalhar o gosto pela leitura?” Bam! Pancada no estômago.

E teve seis curtidas, ainda. (Risos) Então, ele não estava sozinho. (Risos) Mal sabia a gente que essa seria a tônica dos próximos cinco, seis, sete meses de empresa, e que esse seria o comentário preponderante das nossas primeiras tentativas de levar essa ideia pro mercado.

A gente começou com 65 associados. A gente tem três sócios, soma a família de cada um, os amigos de cada um, é mais ou menos o que dá. (Risos) Então, pouca gente era cliente que a gente não conhecia. E seis meses depois, a gente estava com 100 associados, um crescimento quase nulo.

A gente obviamente não ganhava dinheiro, aliás fui ganhar meu primeiro salário, um salário de estagiário, fecha parênteses, quase três anos depois de fundar a empresa. A gente não ganhava dinheiro e, pior, sabia que, se continuasse assim, já tinha percorrido 6 meses com 100 associados, se continuasse assim ia ter mais sete, oito meses de vida e acabou, porque a gente não estava indo a lugar nenhum desse jeito. Ia acabar o dinheiro que tinha guardado ao longo da faculdade pra abrir meu negócio.

E aí eu fiquei me perguntando onde está o amor. Afinal, o amor foi um dos grandes motivos pra eu ter querido empreender. E eu percebi uma coisa: o nosso pensamento, quando a gente projeta ele no futuro, ele não se apega às pequenas coisas, ele não consegue pensar nos detalhes ordinários que vão compor o dia a dia.

Ele pensa nos grandes golpes, nos momentos em que tu te sente orgulhoso pelo que tu construiu, e é isso que tu quer, é nisso que tu pensa e daí tu age mas esquece que o que compõe 10, 11, 12 horas diárias de trabalho são coisas pequenas, são coisas ordinárias, como responder um cliente assim no Facebook, e tentar se divulgar, falar com institutos de cultura, montar caixa, comprar, emitir nota fiscal, comprar livros, fazer um universo de coisas pra no final talvez não dar em nada.

E o pior é que a gente fazia tudo isso com muito carinho… Eu lembro da primeira remessa de associados, a gente queria enviar uma caixa, enfim, bonita, com logo, com desenhos de literatura, só que a gente não podia comprar mil, 2 mil caixas, que era o pedido mínimo de serigrafia, não tinha dinheiro nem volume pra isso. Então a gente mandou fazer um carimbo com o logo da empresa.

E caixa a caixa, a gente carimbava umas 20 ou 30 vezes pra poder ver ela bonitinha e entregar pro associado. E a gente fazia essas coisas não só nas caixas, mas na escolha dos livros, na revista, em tudo que compõe o kit, pra, no final do dia ou no final do mês, perceber que não veio nenhum cliente e que a gente estava um mês mais próximo do fim.

E se é um amor, pelo menos nos estágios iniciais, é um amor não correspondido. (Risos) E aí eu fiquei pensando na história do Roberto Medina, que fez 70 reuniões, com 70 bandas, pra tentar convencê-las a participar do primeiro evento de rock que ele queria criar, e recebeu 70 negativas.

Na 71ª recebeu um sim, e hoje é o Rock in Rio. Eu me perguntava duas coisas frente a essa história. Se algum dia minha 71ª reunião ia chegar. (Risos) Já tinha ido 70, eu acho. Enfim. Ou, pior, se eu não seria um dos Robertos Medinas anônimos.

Ou seja, que não receberam 70 nãos, mas 80, 90, 100, 200, e a coisa nunca aconteceu pra eles. A quantidade desses caras é muito maior do que a de Robertos Medinas que contam a história. Descobri, outra obviedade, que o empreendedorismo é uma aposta que tu faz antes, e tu não sabe se aquilo vai acontecer. Não interessa quanto planejamento tu fez, tu não sabe.

E seria fácil suportar essa dor, a dor da dificuldade de seis, oito meses, se a gente soubesse que em algum momento ela findaria, seja em dois, três anos, e aquilo retornaria, só que a gente não sabe. Tu trabalhar um dia que não veio cliente e tu não saber se o próximo vai dar certo, talvez um dia tu aguente, talvez dois meses aguente, talvez seis tu aguente, mas uma hora tu vai começar a fraquejar. E eu estava fraquejando.

Lembrei do Amyr Klink; no livro Cem Dias Entre Céu e Mar ele relata o projeto empreendedor dele, em que ele veio da África do Sul ao Brasil num barco a remo.

Essa era a ideia dele. Maluca! Assim como toda ideia de empreendedorismo. E o pior é que ele estudou caras que tentaram fazer isso antes dele e todos morreram. (Risos) Só que ele achou que ele ia conseguir. E ele fez um dossiê de 40 páginas onde ele discriminou a cor do barco, qual seria pra evitar musgos, o roteiro que pegaria, as marés, as correntes marítimas em que entraria, o porto do qual ele sairia, o projeto do barco, patrocínio, tudo.

E achou que com aquilo conseguiria fazer. Bateu no peito; mas aí chega a hora de colocar o barco na água. E esse é o momento tranquilo, porque tu ainda está imerso nas tuas convicções e acha que tudo vai dar certo, pega e sai remando, só que daí, um mês depois, tu está no meio do oceano. Aí tu olha pra frente, horizonte, olha pro lado, horizonte, olha pra trás é horizonte, tu não vê mais nada.

E aí começa a dar cãimbra, alguns equipamentos do barco já não estão mais funcionando, tu não conseguiu cumprir a meta, então tu está atrás do que tu imaginava; e aí tu começa a duvidar e as 40 páginas de convicção começam a se tornar 40 páginas de dúvidas.

Tu acha que teu projeto não vai dar certo e assim que a gente estava seis, sete meses depois de iniciar a empresa. Aprendi que o “sim”, por contraintuitivo que pareça, é muito mais restritivo que o “não”. No momento em que tu diz não pra alguma coisa, tu te afasta dela e tu te aproxima de todas as outras, que são infinitas.

Quando tu diz sim, tu te afasta de todo um mundo de possibilidades pra te apegar a uma coisa, que é aquela que tu decidiu. E isso dói, porque tu abre mão não só da vida que tu tinha, no caso do empreendedorismo, de trabalhar oito horas por dia, de não levar tanto trabalho pra casa, de não ter tanto peso de responsabilidade nos ombros, como de tudo aquilo que tu poderia ter tido, projetos que tu poderia aceitar, viagens que tu poderia fazer, que agora tu não pode mais porque tu optou por aquilo.

E esta aqui é uma foto minha, de uma viagem de bicicleta que eu fiz. O cicloturismo é uma coisa muito presente na minha vida, fui de Balneário Camboriú a Porto Alegre, e queria repetir, quero repetir, não consigo repetir; porque não tenho dinheiro e não tenho tempo.

Mas vou ter, espero. (Risos) Como diz o Eduardo Giannetti, filósofo e economista brasileiro: “Apostar na criação, em qualquer campo da atividade humana, é como entrar em uma enorme loteria.

O custo da aposta tem que ser pago na entrada, levando consigo muitas vezes a melhor parte das esperanças e energias de uma juventude”. Eu me sentia assim, com as energias drenadas pelo meu sonho e pela minha ideia que eu gostaria de criar.

Mas aí tem um coitado no qual a gente deposita todas as esperanças, que é o tempo. E acha que o tempo vai mudar alguma coisa. E aí às vezes ele decepciona. Mas às vezes ele não decepciona.

E nosso estoquezinho inicial, que começou primeiro na biblioteca, depois na casa do Gustavo, que é meu sócio, depois num escritoriozinho que a gente conseguiu alugar, pra 65 associados, era pequeninho, hoje ele já cresceu, então a gente está com 5 mil associados. Tenho orgulho… (Aplausos) (Vivas) E só tenho orgulho disso porque sei o quão difícil foi.

E não é só questões numéricas. Éramos três sócios que só brigávamos, porque quando a coisa não dá certo, obviamente a gente só se estressa e não é uma questão nem de relacionamento, no contexto no qual tu está inserido é normal.

E a gente não é mais três pessoas trabalhando, a equipe já cresceu e não está completa, tem mais umas cinco ou seis pessoas. E ver que nossos amigos de antes agora estão trabalhando, numa coisa na qual acreditam e agora que parece que a roda começa a girar, é extremamente gratificante.

E antes a gente falava pra ninguém, agora a gente fala pra alguém. Então todos os meses é uma enxurrada de mensagens do pessoal que recebe a nossa caixinha, até os gatos aproveitam, não só os leitores. (Risos)

E o sorriso no rosto das pessoas que recebem, que agora elas enxergam que não, não é só um livro por R$ 69,90. Não, a gente não quer enganar os incautos que não conhecem de literatura. Não é por isso que a gente está enfrentando todas as dificuldades, não valeria à pena por isso. Então a coisa muda e este é o objetivo da TAG e, no fundo, acho que deveria ser um pouco do objetivo de quase qualquer negócio: arrancar sorrisos.

E a literatura é isso, o kit é isso, as pessoas falam que receber um kit da TAG é como abrir um Kinder Ovo na infância ou fazer aniversário todos os meses.

E é isso, é descobrir novos autores, novas perspectivas. E uma vez uma associada, isso não é caso isolado, mas é um exemplo emblemático, que representa o que a gente está começando a conseguir fazer agora, ela mandou um vídeo pro nosso e-mail, que ela gravou, que ela estava no hospital fazia um mês, processo cirúrgico, não sei o que estava acontecendo; ela tinha pedido, de fato, pra trocar o endereço, a gente não sabia por quê.

Era pra enviar o kit pro hospital; ela gravou quando o kit chegou, dizendo que era o dia mais feliz do mês dela. E isso representa um pouco do que a gente quer trazer, do que a gente tentava trazer, e por isso foi tão duro, tão difícil, mas hoje está acontecendo.

A gente começa hoje a vivenciar e vislumbrar uma possibilidade de recompensa no empreendedorismo. Não do dia a dia, aquelas 11, 12 horas não é de uma apresentação, assim, retomamos os melhores “highlights”. Mas ela é dura, continua dura, mas hoje a gente começa a ver um outro lado, começa a ver que pode, talvez, valer à pena, já está começando a valer à pena.

E se hoje eu falo, ou se a experiência que mais está viva dentro de mim é o preço que se paga por tentar investir em um sonho, eu espero que um dia eu possa falar sobre a recompensa que se tem de verdade de ir atrás de um sonho, pelo menos é isso que eu estou brigando.

Nada garante, isso aqui não é uma… não tem uma mensagem nessa apresentação, ou, se tem, é uma mensagem de que não há uma mensagem nem de… (Risos) nem de otimismo, nem de pessimismo; pode dar certo, pode não dar certo, e essa incerteza é a única coisa presente na vida do empreendedor. Obrigado. (Aplausos) .

Poderá ver o vídeo no youtube Aqui

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